Vida analógica #115 🧶
O passado continua na moda
O passado nunca saiu da moda. Vira e mexe requentamos uma estética, uma música ou um filme do passado e embalamos isso como “ode a nostalgia". Mas, agora, este resgate do passado vem com uma camada um pouco diferente: o desejo por resgatar a vida analógica.
Viver pulando entre apps, reuniões online, IAs e deep fakes nos deixou digitalmente estafados. Enquanto aquilo que acontece na vida real, sem o intermédio das telas, nos parece mais simples e também mais seguro. Modelos de negócio essencialmente digitais perdem a força enquanto coisas que promovem encontros na vida real observam um boom de vendas.
Vamos olhar para os sinais de que o analógico está voltando para a moda?
As comunidades se encontram offline
Nos últimos anos, “ter uma comunidade” tornou-se uma espécie de santo graal para as marcas. Afinal, quando uma marca é interessante o suficiente, ela não atrai apenas consumidores - ela inspira a formação de grupos que se conectam entre si por afinidade com seus valores, estilo de vida, estética ou missão. Mas, recentemente, o ponto de encontro destas comunidades deixou de ser apenas as redes sociais e passou a ser a vida real.
Os dados não mentem. 63% da Geração Z se desconecta voluntariamente das telas - o maior índice entre todas as gerações. Como consequência disso, o mercado de eventos bateu recordes no Brasil em 2026 em todos os setores, desde shows e festas, até eventos corporativos e esportivos.
No esporte, o sucesso das corridas de rua comprova que as pessoas estão sedentas por um motivo (e uma comunidade) pra sair de casa num sábado de manhã. Inclusive, uma pesquisa do Strava descobriu que 87% dos seus usuários ativos usam o app principalmente por conexão social e não por performance.
Marcas de todo tipo estão percebendo a mesma coisa: o encontro presencial virou a melhor forma de construir comunidade porque, ironicamente, é o que a internet não consegue entregar. Vai dizer que grande parte da graça do Álbum da Copa da Panini não está na oportunidade de interação entre amigos e nos pontos de troca?
Os solteiros também estão no off
A gente já tinha alertado sobre isso lá na news #79, quando o Tinder começava a perder usuários pagantes e o Mercadona virava point de paquera com abacaxi de cabeça pra baixo no carrinho. Pois bem: em 2026 a desconfiança virou dado consolidado. 53,3% dos solteiros abandonaram aplicativos de namoro este ano, segundo a SegmentOS.
E esta multidão de solteiros digitalmente cansados está buscando conhecer sua alma gêmea em eventos na vida real. O próprio Inner Circle, que é um app de relacionamento, virou promotor de evento, organizando desde aulas de beach tennis até corridas em grupo pra solteiros. O app Timeleft transformou o jantar entre desconhecidos em produto. E tem o Date My Mate, em que amigos sobem no palco e apresentam o crush solteiro em slide de PowerPoint, com direito a qualidades, curiosidades e a vergonha alheia de sempre. O formato nasceu em Londres e já chegou ao Brasil.
E se o abacaxi da Espanha parecia estranho, a Finlândia elevou o nível: supermercados como K-Supermarket e S-Market passaram a oferecer cestinhas rosa que sinalizam, silenciosamente, que quem carrega está solteiro e disponível.
Jovens com hobbies de vovó
Esta ironia também é boa: a Geração Z está adotando hobbies que são, essencialmente, os da avó (como pintura, crochê ou bordado). A imprensa internacional já batizou a onda de “granny core”. Mas as contradições não acabam por aí: 50% dos brasileiros que começaram um hobby artesanal novo descobriram este hobby no TikTok.
A graça, é claro, é fazer estas atividades em comunidade. Assim, marcas como a cafeteria Tinta La Vida surfam esta onda permitindo que seus clientes pintem uma cerâmica enquanto saboreiam um café. Nesta mesma batida, é cada vez mais comum vermos restaurantes e cafés oferecendo experiências criativas como a produção de velas, pintura, culinária e tantos outros trabalhos manuais. É o varejo de alimentos, finalmente, conseguindo operar como o terceiro lugar.
Uma questão de segurança
O caso é de 2024, mas segue valendo como parábola do nosso momento: um funcionário de multinacional transferiu US$ 25 milhões depois de cair numa videochamada em que todo mundo, menos ele, era deepfake. O diretor financeiro, os colegas, a reunião inteira. Só existia de verdade quem caiu no golpe.
Em 2026 essa desconfiança já não é exclusividade corporativa. Criminosos estão clonando vozes e a recomendação de especialistas é sempre: combine uma palavra-chave com quem você ama, porque ouvir a voz de alguém já não prova mais nada. Ainda: ligue, visite, não confie somente no online.
Quanto mais sofisticada fica a IA, mais a gente volta a confiar só no que consegue tocar, ver ao vivo ou confirmar por um canal que já conhecia antes. Reuniões importantes, decisões sigilosas e negociações delicadas estão voltando a acontecer só entre quatro paredes. Não por saudosismo. Por segurança mesmo.
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63%
Da Geração Z se desconecta voluntariamente das telas, o maior índice entre todas as gerações.
US$ 10,69 bilhões
É quanto o mercado global de tricô e crochê deve crescer entre 2024 e 2028, segundo a Technavio.
0,08
Foi a nota de precisão humana em detectar deepfakes, numa escala de 0 a 1, segundo relatório da Veriff no Brasil - mal acima do acaso.
87%
dos brasileiros entrevistados temem golpes de personificação com IA, segundo a Kantar.
53,3%
Dos solteiros abandonaram aplicativos de namoro em 2026, segundo relatório da SegmentOS — o motivo mais citado foi esgotamento emocional e não falta de opções.
59%
Da Geração Z acredita que a IA generativa vai levá-los a buscar empregos menos automatizáveis, como trabalhos manuais - segundo a Deloitte.
E para fechar essa news cheia de cruzamentos do online com o offline, te convidamos para assistir na integra o painel a “IA e a morte da dicotomia de marca e performance” que participei durante o Web Summit Rio deste ano.





Que doidera esses dados, mas além das telas o que impulsiona ainda mais esses comportamentos é o consumo excessivo, não só de bens materiais mas principalmente o consumo contínuo de conteúdos nas redes sociais e se colocar no balanço esse lance de IA generativa ai que ferrou, ninguem mais sabe quem ta produzindo por conta ou quem ta só jogando pra IA fazer. Chega de consumo chega de IA por favorrrr